Agricultura sem agricultor

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Agricultura sem agricultor

Mensagem por DeniseTeixeiradeOliveira em Dom 24 Jul - 6:22


A expressão agricultura sem agricultor foi utilisada por Gabriel Oyhantçabal para designar, e principalmente denunciar, o fenômeno que ele chama de estrangeirização do Uruguai; em poucas e outras palavras, a desenfreada aquisição de terras em seu país por multinacionais do ramo agrícola especializadas em cultura de grãos geneticamente modificados. Ele denuncia que quase 1/3 do território uruguaio pertence hoje à empresas privadas estrangeiras e, ainda hoje, não existe legislação que limite o percentual do território uruguaio que pode ser vendido.

Maior produção agrícola, neste caso, torna as pessoas e o país mais pobres, e é o que acontece em vários países no mundo, daí a crítica daquele pesquisador. O paradoxo criado entre ser produtivo e empobrecer é conhecido por nós brasileiros e por muitos outros países pobres e emergentes. A produção agricola aumenta, a balança comercial tem seus índices favorizados pelo aumento da exportação, os números da macroeconomia aparecem bons e melhores, e, ao fim e ao cabo, a população e o país estão mais pobres.

Mas de que pobreza se fala aqui? Ora, o aumento da produção agrícola não tem a ver necessariamente com a melhora da qualidade e quantidade do que come o povo, pela simples razão que tal produção não é destinada ao consumo das pessoas do país. Estas continuam pagando o mesmo preço, ou mais caro, pelos alimentos que consomem, e nos pratos se come pouco e mal. E se isso não bastasse, a figura do agricultor desaparece por completo vez que substituída pela agricultura totalmente mecanizada.

Com a expressão agricultura sem agricultor a idéia é lançar um alerta à comunidade internacional para o problema complexo do empobrecimento geral dos países que adotam esse modelo de agricultura. Empobrecimento aqui visto da maneira mais ampla possível e visto a longo termo.

O fenômeno de industrialização da atividade no campo não é novo, mas o que se denuncia hoje vai além disso, e é muito mais grave. A atividade financeira que consiste na administração de sollus capital se desenvolve cada vez mais, e empresas como Pergam Finances e Landing Grain, para citar exemplos mais conhecidos, enriquecem longe dos olhares mediádicos.

Se o trabalhador do campo desaparece, pois não tem mais trabalho, mas o homem do campo continua existindo, é sinal de que a coisa vai de mal a pior. Algumas vezes ele é o miserável que vive nas zonas rurais. Outras, aquele que segue em direção às metrópoles, onde será também um miserável. E o país como fica mais pobre...

A cultura de transgênicos muitas vezes é destinada à alimentação do animal que será destinado à alimentação humana. E pouco se sabe sobre os efeitos a longo prazo de tais manipulações genéticas. E com essa política de vender suas terras à empresas estrangeiras o problema é retroalimentado, pois os lucros que tais empresas aportam – que é imenso, especialmente por não ter grandes cargas em recursos humanos e por serem beneficiárias de incentivos fiscais – não ficam no país, não são reinvestidos no país. Partem, claro, ao país onde a empresa é sediada.

O caso do Uruguai se repete em outros países do mundo. Um chocante exemplo que vi recentemente é emblemático. O ministro das relações exteriores da Etiópia anuncia que para tirar o país da linha de miserabilidade que ocupa desde muito tempo, o governo decidiu abrir o país para investidores estrangeiros, afin de que estes comprem terras e a façam produtivas.

O problema é que a agricultura subvencionada por aquele governo é a destinada exclusivamente à exportação. Fazendo assim, o governo da Etiópia (diz que) visava à aumentar a oferta de empregos no campo. Mas de que adiantou? Nada! Com seus salários miseráveis o povo continua não tendo meios para comprar alimentos. O preço dos alimentos não diminiu, pois a produção local é destinada exclusivamente à exportação.

O ciclo vicioso do problema se vê facilmente. O país e seu povo pobres em vários sentidos, ficando cada dia mais pobres. E por aí vai… E assim vemos um dos países mais pobres do planeta ficar mais pobre.

No Brasil estamos também acostumados desde cinco séculos a entregar de bandeija nossas riquezas naturais, a terra sendo uma delas. Se no nosso caso a legislação protege a quantidade de terras que pode ser vendida à pessoas e empresas estrangeiras, quase nada se faz em termos de fiscalização do cumprimento dessas regras. Como se não bastasse, muito pouco é proibido em matéria de produção de trangênicos.

O ciclo de empobrecimento continua girando, inclusive na nossa casa. Comemos cada vez mais alimentos genéticamente modificados, animais alimentados com rações genéticamente modificadas etc.

E ainda tem gente que acredita que o Brasil está em desenvolvimento… Neutral
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DeniseTeixeiradeOliveira
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